ONDE NASCE A POESIA ( M. VITAL)

 






1909


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💛💛💛 24/01/2026 

💛💛💛  08/02/2026   PORTAL


💛💛💛 08/02/2026 PORTAL



💛💛💛  28/01/2026


💛💛💛  08/02/2026 PORTAL

💛💛💛  28/01/2026



















Onde nasce a poesia    💛💛💛 DEZ. 2025

Não foi, amada!
Não foi o orvalho
da madrugada...
Foi a lua na janela
que te surpreendeu
dormindo e chorou
desconsolada...
[Afonso Estebanez]
.
Tela:Josephine Ducollet
.



RUGAS
Ana Barreto

Em cada sulco na tua pele tão gravado
Existem traços de uma vida que viveu
São tantas marcas, digitais do teu “eu”
Contam histórias e os casos já passados

A tua infância em um tempo malogrado
Num resquício, a bela moça que sonhou
Histórias saudosas de alguém a quem amou
Algum desejo por muito tempo acalantado

Teus traços dizem do que a ti foi ofertado
De cada alegria e cada dor por que passou
Coisas que, na tua pele, o destino desenhou

E num momento, em um canto bem guardado
Nas tuas lágrimas ou teus sorrisos revelados
Retratam ao mundo o que a vida te causou...
.
TELA:Ivan Valentino 
Ver menos



AMA-ME PELO AMOR DO AMOR SOMENTE
Elizabeth Barrett Browning
Tradução: Manuel Bandeira

Ama-me pelo amor do amor somente.
Não digas nunca: "Amo o sorriso dela,
Seu rosto, ou o jeito de dizer aquela
Palavra murmurada de repente

Que faz meu pensamento confidente
Do seu, e torna a tarde ainda mais bela".
Tudo pode mudar, meu bem, cautela,
Pois pode ser que o amor de nós se ausente.

Tampouco sirva o amor que assim me dás
Pra enxugar-te o pranto por piedade:
Quem prova teu consolo é bem capaz

De, sem chorar, perder-te por vaidade.
Mas se amas por amor, conseguirás
Amar sem fim, por toda a eternidade.
.


espera bravia
alcança a última gota
no mar dolorido
[Ydeo Oga]
.
.Tela: John William Godwar



Aquele que mente a si mesmo e escuta sua própria mentira vai ao ponto de não mais distinguir a verdade, nem em si,nem em torno de si; perde pois o respeito de si e dos outros.Não respeitando ninguém, deixa de amar; e para se ocupar,e para se distrair, na ausência do amor, entrega-se às paixões e aos gozos grosseiros; chega até a bestialidade em seus vícios, e tudo isso provém da mentira contínua a si mesmo e aos outros. Aquele que mente a si mesmo pode ser o primeiro a ofender-se. É por vezes bastante agradável ofender a si mesmo, não é verdade?
[Fiódor Dostoiévski in Os Irmãos Karamazov]

*NOTA:
Os Irmãos Karamazov é um romance de Fiódor Dostoiévski, escrito em 1879.


A DOENÇA DA ALMA
Amaro Vaz
Carangola/Macaé
Série improvisos

Não esconda dentro d’alma
Resquícios de um sofrimento
Tenha fé. Mantenha a calma!
Que tudo é questão de tempo.
Não sou doutor em ciência
Mas sei tudo da carência
Que se alastra em nosso ser...
Uma célula se zanga
A um’outra logo desanda
Sem a gente perceber.

De repente uma fadiga
Provoca dores no corpo.
Dói a cabeça, a barriga
Um pequeno desconforto.
Vai-se ao médico tentar
Um jeito de melhorar
Porém a dor só piora...
E de um pequenino trauma
Cresce a DOENÇA DA ALMA
Que se alastra corpo afora.

Dizem os sábios do mundo
Que essa dor incurável
Vem de um desgosto profundo
Algo atroz, incontrolável
Mexe com a nossa cabeça
Por mais simples que pareça
Pouco a pouco nos detona...
Uma célula atingida
Contamina um’outra amiga
E tudo vira uma zona.

Não há quimioterapia
Nem vacina, nem remédio
Só a morfina alivia
A dor de terrível tédio
Enquanto a doença avança
A gente sem esperança
Corre em busca de uma cura...
Carregando imensa cruz
Tentamos achar a luz
Nos escuros da amargura.

O cigarro, há quem diga
É seu maior aliado
Ninguém culpa a fadiga
De um sentimento guardado
Há quem culpe o adoçante
Culpam o refrigerante
Há quem culpe a luz do sol...
Eu prefiro o meu conceito
Não guardar dentro do peito
Coisas que causam esse mal.

Sempre ofereço a outra face
Ou deixo nas mãos de Deus
Transparente, sem disfarce
Sigo atrás dos sonhos meus
Não dou abrigo à tristeza
Carrego em mim a certeza:
Não ter culpa sobre os ombros...
Tenho o cuidado, o capricho
De por as mágoas no lixo
Todo ódio nos escombros.

O câncer, caros doutores
Perdão por minha ousadia
Só espalha seus tumores
Quando encontra moradia:
Numa mente amargurada
Numa alma enclausurada
Nos escuros da aflição...
Ataca os rins, os pulmões
Garganta, sangue, tendões
Nunca ataca o coração.

Neste orgãozinho danado
Câncer entra e câncer vai
Nada fica represado
Mal que entra é mal que sai
Sejam células doentes
Sejam sangues poluentes
Se entrou, tem que sair...
Se na ciência interfiro
Perdão doutor. Eu prefiro!
Minh’alma matar de rir. 
Ver menos


A ESTAÇÃO DA DESPEDIDA
Nelson Rodrigues de Barros

Nas estações da vida...
Se vivenciam chegadas e partidas,
Encontros e despedidas...
São locais de alegria e de dor.

Em cada estação,
Há um universo de saudade...
Lágrimas de realidade...
Por um adeus de um grande amor.

Lenços brancos cruzam a paisagem,
O destino nem sempre se sabe...
Uns chegam cedo, outros tarde...
É como um filme que nunca terminou.

Na estação se vê abraços...
Nas malas se levam alguns retratos
E a lembrança de um passado,
Que na verdade nunca passou.
.


UM BOLERO CIGANO...
Eurídice Hespanhol

Quando os passos na cintura em delírios
acompanham a festa da alma,
somos nós em terremoto que acalma
a desnudar nossos sonhos antigos.

Quando o amor em sonetos descontados,
trilhar os mares dos sonhos acordados,
somos nós
a cantar nossos prazeres,
a tanto e tanto, interditos,
hibernados...
E quando o tempo nos indicar a rota,
vem, vem mesmo,
não espere o trem das sete,
o carro de bois ou a carruagem dos sonhos.
Vem,
que de tanto a espera é finda,
e eu... devoro-te, ainda...
vem...

Jabuticabas - Oficina Editores - 2012
.
TELA: Renoir




DESEJO
Cassiano Ricardo
[1895 - 1974]

As coisas que não conseguem morrer
Só por isso são chamadas eternas.
As estrelas, dolorosas lanternas
Que não sabem o que é deixar de ser.

Ó força incognoscível que governas
O meu querer, como o meu não-querer.
Quisera estar entre as simples luzernas
Que morrem no primeiro entardecer.

Ser deus - e não as coisas mais ditosas
Quanto mais breves, como são as rosas
É não sonhar, é nada mais obter.

Ó alegria dourada de o não ser
Entre as coisas que são, e as nebulosas,
Que não conseguiu dormir nem morrer.
.

💛💛💛 DEZ./2025

ABANDONADA
Augusto dos Anjos
Eu e outras poesias, 1920

Bem depressa sumiu-se a vaporosa
Nuvem de amores, de ilusões tão bela;
O brilho se pagou daquela estrela
Que a vida lhe tornava venturosa!

Sombras que passam, sombras cor-de-rosa
— Todas se foram num festivo bando,
Fugazes sonhos, gárrulos voando
— Resta somente um'alma tresturosa!

Coitada! o gozo lhe fugiu correndo,
Hoje ela habita a erma soledade,
Em que vive e em que aos poucos vai morrendo!

Seu rosto triste, seu olhar magoado,
Fazem lembrar em noite de saudade
A luz mortiça d'um olhar nublado.
.
Tela:Fulvio de Marinis


AINDA... UM AI!
Telma Moreira

Ai... Essa vontade que ainda devora!
Essa esperança que não foi embora,
Essa lembrança que retorna agora,
Essa saudade sua tão fora de hora...

Ai... Esse pensamento que me consome,
Esse tormento que nem sei dar nome,
Esse cheiro seu que me atiça a fome,
Esse gosto doce que não mais se come!

Ai... Aquele espaço que ficou guardado,
Aquele sentimento que foi desprezado,
Aquele presente que nunca foi dado,
Aquele instante que jamais será usado...

Ai... Aquela minha verdade não dita...
Aquela mentira sua, quase maldita,
Aquela poesia nossa tão mal escrita,
Aquela mágoa que meu peito agita...

Ai... Essa minha torpe vontade louca!
Esse sabor de hortelã em nossa boca!
Aquele sussurrar de sua voz rouca,
Aquela carícia que se tornou pouca...

Ai... Essa dor ainda... Desse lamento, daquele tempo...
Daquela magia que não se vai!
.
Tela: Andrew Atroshenko
.



POETAS
Amaro Vaz
Colatina/Carangola
09/02/12

Poetas são exímios escultores
Que esculpem sentimentos nas palavras.
Alguns são quais vulcões cuspindo lavas
São poucos os que nelas pintam flores.

Os tristes agem como os opressores
Que tratam as palavras como escravas.
Os loucos criam laços com as larvas
Em seus comuns instintos predadores.

Poetas vivem mundos tão diversos
Que as fartas alegrias de seus versos
São dores que sequer estão sentindo.

Dos semelhantes roubam a tristeza
Do mundo, às vezes, feio, a beleza.
E assim seus versos seguem construindo.
.

DO ABISMO
Ana luiza
(coisas de Ana)

...de um e outro olhar
um código decifrado
roubava a cena

mas ninguém viu
nem eu
só meus olhos

foram eles
que me contaram
antes de adormecerem

e eu sonhei com a luz!
.
TELA de Fulvio de Marinis
.
















Ana Barreto
O que dizer de alguém que "veste"
as suas palavras tão lindamente???
Obrigada sempre, Margot Vidal!
Como se já não fosse imenso
o presente da sua amizade,
ainda mais isso....
Te amo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
  • ACOLHIDA
    Ana Barreto
    Você me devolveu a mim, obrigada!
    Permito-me a dádiva que o teu amor encerra
    Permito-me reescrever na humildade de quem erra
    A minha história, pois ainda há tempo
    Permito-me gritar, inteira, aos quatro ventos
    A felicidade e o encantamento que me tomam
    Os sentimentos loucos que em mim se somam
    Permito-me o reencontro, esse é o momento
    De jogar às cinzas as dores do passado
    De riscar do tempo os amores malogrados
    De viver de tudo... E ao amor sorrir...
    Permito-me ser feliz, pois é essa a hora
    E que o amor me venha solto, sem demora
    Pois meu desejo é nunca mais ter que partir...
    Natal, 26 de Janeiro de 2014
    .
    TELA de Fulvio de Marinis



EPIGRAMA DO ESPELHO INFIEL
Cecilia Meireles
A João de Castro Osório
In Vaga Música, 1942
Entre o desenho do meu rosto
e o seu reflexo,
meu sonho agoniza, perplexo.
Ah! pobres linhas do meu rosto,
desmanchadas do lado oposto,
e sem nexo!
E a lágrima do seu desgosto
sumida no espelho convexo!
.
Tela: Fulvio de Marinis



SAUDADE
Gilka Machado
(in Velha poesia, 1965)

De quem é esta saudade
que meus silêncios invade,
que de tão longe me vem?
De quem é esta saudade,
de quem?
Aquelas mãos só carícias,
Aqueles olhos de apelo,
aqueles lábios-desejo...
E estes dedos engelhados,
e este olhar de vã procura,
e esta boca sem um beijo...
De quem é esta saudade
que sinto quando me vejo?




AMOR VIRTUAL
Ângela Faria de Paula Lima

Entraste em minha vida de mansinho
Qual fantasma na sombra dos meus dias
Prometeste-me afagos e carinhos
Vibraste o coração em melodias

Qual sonho adormecido tu chegaste
Assim , dessa maneira, virtual
E sinto-te palpável, quase vivo
Enfeitas de estrelas meu astral

Encheste minha vida de quimeras
De luzes,cores,sons.Mas de repente
Acordo e vejo,que embora realidade
És vendedor de sonhos simplesmente...
.



O ALUNO
José Paulo Paes
In ‘O Aluno’ (1947)

São meus todos os versos já cantados:
A flor, a rua, as músicas da infância,
O líquido momento e os azulados
Horizontes perdidos na distância.

Intacto me revejo nos mil lados
De um só poema. Nas lâminas da estância
Circulam as memórias e a substância
De palavras, de gestos isolados.

São meus também, os líricos sapatos
De Rimbaud, e no fundo dos meus atos
Canta a doçura triste de Bandeira.

Drummond me empresta sempre o seu bigode,
Com Neruda, meu pobre verso explode
E as borboletas dançam na algibeira.
.
Tela: Do Carmo


O BEIJO E A LÁGRIMA
Mia Couto

Quero um beijo, pediu ela.

Um sismo
abalou o peito dele.
E devotou o calor
de lava dos seus lábios,
entontecida água na cascata.

Entusiasmado,
ele se preparou para, de novo,
duplicar o corpo e regressar à vertigem do beijo.

Mas ela o fez parar.

Só queria um beijo.
Um único beijo para chorar.

Há anos que não pranteava.
E a sua alma se convertia
em areia do deserto.

Encantada,
ela no dedo recolheu a lágrima.
E se repetiu o gesto
com que Deus criou o Oceano.
.


MOÇA...
Nelson Rodrigues de Barros

Moça de olhares tão discretos,
Jeito doce... meu coração deserto...
Suspiro por ti, ó singela flor!

Moça de olhares tão carentes...
Febril peito aberto à frente...
Sobrepujas o limiar do meu ardor.

Moça dos mistérios meus...
Agonizante, sem tu, sou eu...
Amores profundos e incessantes.

Moça dos sonhos de outrora...
Vejo-te rebuscada na memória...
Paixões de agora, maiores que antes.
.
TELA:: Pascal Chove
.

ANSIEDADE
Amaro Vaz

Cada minuto no fazer da hora
Quando vivido com toda altivez.
Traz a certeza de que na mente mora
A tão sonhada luz da sensatez.

A impaciência, quando louca aflora,
Exibe, quase sempre, a estupidez.
A regra do convívio, ela, ignora
Com farta ignorância e rapidez.

A pressa, essa maluca, é inimiga,
Da perfeição. Fragilizada a viga
Do amor. Do relacionamento!

O tempo age contra os bons princípios
Deixando em sua mente os indícios
De que o final virá antes do tempo.

Colatina/Carangola
28/01/2014
.






Se nada te falta, nada peças...
E que não te falte humildade
para agradecer a Deus, aquilo
que nem precisaste pedir...
[Ana Barreto]
.

UM MILAGRE
António Chaves

São rosas senhor,são rosas
Rosas do meu jardim
Não sei escrever em prosa
Acabo escrevendo assim.

Um milagre na minha vida
Ando a precisar
Mesmo mal vivida
Só o senhor pode dar.

De uma coisa louca
Apura-se a verdade
Que de louca tem pouco
Mas já deixa saudade.

Do lugar de onde venho
Dos tempos de outrora
As saudades que tenho
Para trás fica agora.



A BORRALHEIRA
Guimarães Junior

Meigos pés, pequeninos, delicados,
Como um duplo lilás, se os beija-flores
Vos descobrissem entre as outras flores,
Que seria de vós, pés adorados!

Como dois gêmeos silfos animados,
Vi-vos ontem pairar entre os fulgores
Do baile, ariscos, brancos, tentadores,
Mas, ai de mim! como os mais pés, calçados.

Calçados como os mais! Que desacato!
Disse eu... Vou já talhar-lhes um sapato
Leve, ideal, fantástico, secreto...

Ei-lo. Resta saber, Anjo faceiro,
Se acertou na medida o sapateiro:
Mimosos pés, calçai este soneto.
.
Tela: Arthur Rackham


UM DIA... NÃO MAIS QUE UM DIA!
Telma Moreira

Hoje...
Quero apenas o silêncio covarde...
Sufocar a revolta, o grito,
Que teima em sair da garganta...
Embora não deva!

Preciso urgente acalmar a raiva
E a mágoa desse conflito
Que não morre, mas estanca
Na palavra presa!

Retirar máscara e maquiagem
Borrar o rostinho bonito
Que sorri, fingindo ser santa,
A alma em treva!

Preciso que as lágrimas chorem
O pranto seco do infinito...
Tragar essa solidão que canta
A dor indefesa!

Hoje!
Somente hoje permito essa heresia,
Porque amanhã será outro dia!
.
Tela: Lucio Amitrano


SEJA BREVE
Ana Barreto

Não canse meu amor, apresse o passo
Aqui desse lado, continuo a te sonhar
E aqueles beijos que ousaste imaginar
Serão parte do nosso primeiro abraço

Vem amor, não pare, aperte o laço
Aquilo que nos une está a te esperar
É tanta fome que eu sinto de te amar
Que o coração bate em descompasso

Vem meu amor e de nós não desista
Que eu para ti desenhei cada pista
Dos muitos caminhos pra me encontrar

Vem meu amor, que eu te desejo sorte
Se não vieres decretarás minha morte
Vem e me abraça... E se faz meu par...
.
Tela: Lucio Amitrano



SÚPLICA DE UMA ANCIÃ
Patricia Neme

O tempo chega em passo sorrateiro
Acampa seu cansaço em meu cabelo
E torna branco o negro derradeiro
Sem que eu jamais pudesse percebê-lo...

Meu corpo ele percorre por inteiro
Em gestos sem ternura, sem desvelo
E mina, e curva meu porte altaneiro
Sem que eu jamais pudesse percebê-lo...

Meu Deus, longe vai minha mocidade
Hoje, tão alquebrada, temo a idade
Protege-me Senhor, guarda-me o fim.

Que eu possa ter serena despedida
Que não me assuste o instante da partida
Segura-me a mão, cuida de mim...

DE JEITO ALGUM
Catarino Salvador

Você se lembra,
que quase te amei?
- nossa! Quase, que te esqueci.

Mas, neste vai e volta,
A gente quase que, se encontra!
E, a gente quase que, se perde.

E já não duvido desta porta,
Que é "uma passagem inédita",
De nossos destinos...

Por ela, os sonhos não tem direitos!
Mas, o quase tem
E, quase que, reviramos o destino.

E quase!
Quase, que te esqueço.
.



BRINCADEIRAS DE AMAR
Amaro Vaz

Cabe no verso as formas mais eróticas
De se fazer o amor completamente
Cabem aquelas coisas indecentes
Dizem que cabem até coisas robóticas.

Cabe um beijo e cabem mil abraços
Um vai e vem moroso e sem pudor
Cabe de Deus, a grande obra, o amor
Cabem, depois de tudo, os cansaços.

Cabem viagens de mãos atrevidas
Um degustar, que é feito de lambidas
Sob a penumbra da luz semi-apagada.

Cabe um dormir contente e saciado
E antes que o dia seja acordado
Cabe feliz e saliente outra pegada.
.
Tela: Jack Vettriano
.




É BOM? DEMAIS!!!
Elisabete Lacerda

Parece mentira!
Brincadeira dos deuses?
Não é não!
É apenas um coração que se surpreende
com a chegada do outro.
Você não esperava?
Nem eu!
Assusta?
Muito!
É bom?
Demais!
Me arrepio de pensar
que você ainda vai me beijar!
Parece mentira...
Mas não é!
.
Tela: Stefano Puleo


O QUE QUER DIZER
Paulo Leminski

O que quer dizer diz.
Não fica fazendo
o que, um dia, eu sempre fiz.
Não fica só querendo, querendo,
coisa que eu nunca quis.
O que quer dizer, diz.
Só se dizendo num outro
o que, um dia, se disse,
um dia, vai ser feliz.
.
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Para as traições, para as mentiras, para o que é vil
e falso, tem a gente remédio: tem o orgulho; mas para
a dor que te faz mal, para essa nenhum remédio há.
[Florbela Espanca]
.
.
.
.
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ÚLTIMO DESEJO
Noel Rosa
Composição: Noel Rosa

Nosso amor que eu não esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João

Morre hoje sem foguete
Sem retrato e sem bilhete
Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo penso e nada falo
Tenho medo de chorar

Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora
Que você lamenta e chora
A nossa separação

Às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
Que eu arruinei sua vida
Que eu não mereço a comida
Que você pagou pra mim.
.


SONHOS
Ana Barreto

Sonhos voam...
Com asas multicores de borboletas
Não sei de que magia elas são feitas
Mas levam meus sonhos longe...
Até onde está meu coração...

E de sonhá-los, quanta emoção!
São lindos nos caminhos que construi
São ermos nos lugares de onde parti
Busco meus sonhos
No entoar de uma canção...

Desafinada, confusa, inexpressiva
Quem vai reger os sons da minha vida
São os meus sonhos, o meu desejo e
emoção! .
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PEQUENA RUA
Amaro Vaz

O chão batido da pequena rua
De uma cidade do interior
Menino ainda eu já olhava a lua
E dentro dela eu via o seu amor.

De uma mangueira retirava mangas
Como quem tira alguém para dançar
Mamãe me vinha com as suas zangas
E aqueles sonhos vinha me roubar.

Hoje a cidade chamam de metrópole
Os cemitérios chamam de necrópole
E o tempo eu passo num apartamento

Ai que saudade amiga. Ai que saudade!
Das muitas cores da minha cidade
Sobre este céu nublado, tão cinzento.


Meus sonhos voam,ultrapassam muros.
Cravam farpas e flores...reveste a paz.
Dopa-me de risos...dores.
Embriaga-me ao ritmo dos poetas e
tece símbolos a um universo de alquimia.
_Diléia Marrod_ 
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AO CORAÇÃO
Francisca Clotilde
1862 - 1935

Porque suspiras, coração dolorido?
Ermo de afetos, cheio de amargura!
Fugiu de ti a plácida ventura!
Eis-te sozinho, a suspirar descrido!

Não mais no mundo pérfido, iludido.
Serás de afetos vãos da criatura,
Brilha em teu céu uma esperança pura,
É Deus que atenta o ser desiludido!

Busca o conforto místico, que vem
Trazer-te a luz, que dimanou do bem,
E que fulgiu nos braços de uma cruz;

Despreza os bens efêmeros da terra,
Busca o tesouro que somente encerra
O amor perfeito que sonhou Jesus.
.
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NADA POR MIM
Paula Toller

Você me tem fácil demais
E não parece capaz
De cuidar do que possui
Você sorriu e me propôs
Que eu te deixasse em paz
Me disse vai e eu não fui

Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu

Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu

Você me diz o que fazer
Mas não procura entender
Que eu faço só pra te agradar
Me diz até o que vestir
Com quem andar e aonde ir
E não me pede prá voltar

Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu..
.
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TENTE OUTRA VEZ
Jenario de Fatima
(Soneto dedicado a Ana Barreto)

Tente sim anjo, a vida é tentação
Tente, e se possível bem contente
Tente no amor, tente na profissão
Tente que a vida segue em frente

Tente ser entre loucura e ser razão.
Entre ser lucidez e ser demente
Se for preciso vá pela contra mão
Na contra mão anjo contra a corrente.

Tente e nunca pense em obstáculos
Nem se guie nos olhos dos oráculos
Descubra o que existe do outro lado

Depois anjo, se nada não der certo
Nunca verás ,rondando em ti, por perto
A culpa de não ter enfim tentado.

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Presságio
Vera Pimentel

Parecia ser amor ...e eu louca
não queria aceitar...tive medo
que todo beijo doce em minha boca
levasse meu coração ao degredo

E toda emoção que senti...foi pouca
ante o pavor de ser mero brinquedo
as juras ditas em voz suave ,rouca
tinham um quê de magia ,de segredo

Meu coração, por certo já sabia
que as frases de amor que eu ouvia
eram só palavras vazias, sem valor

E veio a despedida,,,num fim de dia
foi tal o verso triste d'uma poesia
eu pressenti...não pude evitar a dor.
.
Minha Página:



OS VENDILHÕES DO TEMPLO
Antonio Aleixo

Deus disse: faz todo o bem
Neste mundo, e, se puderes,
Acode a toda a desgraça
E não faças a ninguém
Aquilo que tu não queres
Que, por mal, alguém te faça.

Fazer bem não é só dar
Pão aos que dele carecem
E à caridade o imploram,
É também aliviar
As mágoas dos que padecem,
Dos que sofrem, dos que choram.

E o mundo só pode ser
Menos mau, menos atroz,
Se conseguirmos fazer
Mais p'los outros que por nós.

Quem desmente, por exemplo,
Tudo o que Cristo ensinou.
São os vendilhões do templo
Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece...
Obedece ao seu vigário,
Porque julga que obedece
A Cristo — o bom doutrinário.
.
Tela: Ivan Nikolayevich Kramskoy
.
Minha Página:





FAXINA PARA O ANO NOVO
©rosangelaSgoldoni

Hoje rasguei muita coisa.
Periodicamente limpo o arquivo de memórias.
Fico mais leve a cada procedimento:
livro-me de ressentimentos
já esquecidos,
mas registrados em folhas de um passado
nem sempre longínquo.

Varro pensamentos que escaparam
e se esconderam sob o tapete;
aspiro com vigor algum dissabor
que teime em se camuflar.
Um pano de chão umedecido rastreia
e desinfeta o mofo das desilusões.

Estou “clean!”.
Pronta para a ilusão do Ano Novo.
Mas, ciente de que esperança
é o que me orienta na estrada,
não consta em qualquer calendário
por tratar-se de exercício diário.

10 12 2011
RL T 3 382 466
.
Minha Página:



A FAXINA
Martha Medeiros

Estava precisando fazer uma faxina em mim...
Jogar fora alguns pensamentos indesejados,
Tirar o pó de uns sonhos,
lavar alguns desejos que estavam enferrujando.....
Tirei do fundo das gavetas lembranças que não uso e não quero mais.
Joguei fora ilusões, papéis de presente que nunca usei, sorrisos que nunca darei...
Joguei fora a raiva e o rancor nas flores murchas
Guardadas num livro que não li.
Peguei meus sorrisos futuros e alegrias pretendidas e as coloquei num cantinho, bem arrumadinhas.
Fiquei sem paciência! Tirei tudo de dentro do armário e fui jogando no chão:
paixões escondidas, desejos reprimidos, palavras horríveis que nunca queria ter dito, mágoas de uma amiga sem gratidão, lembranças de um dia triste...
Mas lá havia outras coisas... belas!!!
Uma lua cor de prata...os abraços....
aquela gargalhada no cinema, o primeiro beijo....
o pôr do sol.... uma noite de amor .
Encantada e me distraindo, fiquei olhando aquelas lembranças.
Sentei no chão,
Joguei direto no saco de lixo os restos de um amor que me magoou.
Peguei as palavras de raiva e de dor que estavam na prateleira de cima -
pois quase não as uso - e também joguei fora!
Outras coisas que ainda me magoam, coloquei num canto para depois ver o que
fazer, se as esqueço ou se vão pro lixo.
Revirei aquela gaveta onde se guarda tudo de importante: amor, alegria, sorrisos, fé…..
Como foi bom!!!
Recolhi com carinho o amor encontrado,
dobrei direitinho os desejos,
perfumei na esperança,
passei um paninho nas minhas metas
e deixei-as à mostra.
Coloquei nas gavetas de baixo lembranças da infância;
em cima, as de minha juventude, e...
pendurado bem à minha frente,
coloquei a minha capacidade de amar... e de recomeçar...
.
TELA: Lucia Russo
.
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TRAÍRES OUTROS
Amaro Vaz Filho

Diz que me ama o amor aventureiro
De uma mulher que vive a desventura.
Dos outros beijos, da infiel procura
Ao encontrar em mim seu cativeiro.

Me vem serena, sem arrependimento
E me chama de paixão, me beija a face.
Vem desprovida de qualquer disfarce
Pois, não precisa deste atrevimento.

Conhece o beijo, feito de ausências
Nas bocas órfãs de loucas indecências
Conhece, ainda, o meu falar de amor.

Por isso dorme inteira a nossa cama
E se num toque acendo a tua chama
Me ama com explosão e despudor.

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O FUMO DO POETA
Dorothy de Castro

Eu era só, tão malfadado e triste
Tão iludido, o pior que existe
Ainda é bem melhor do que já fui...

Eu carregava as dores nos meus braços
E exibia a todo mundo os traços
Nada é suposto do que alguém intui...

O fumo era tragado e preso na garganta
Fumaça de um cigarro que a tristeza espanta
Ainda hoje sinto o gosto amaro e azedo...
A recitar monólogos de triste poesia
Virei poeta e a vida já não me mete medo!
Nada me dava, e em troca eu nada devolvia

Eu era só...
Eu carregava...
O fumo era tragado...
Virei poeta!
.
TELA: Adalberto Carvalho
.
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Começa a invadir o meu quarto uma brisa
com cheiro de novo.
Me acariciando com mãos de futuro e soprando,
lambendo meio que obscena os vestígios, o
que daqui a alguns dias será apenas passado.
[Diléia Marrod]
.
.
Foto:Google
.
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DESAFIO
Danniel Valente

Na poesia,
perpetuei a minha infância
e vivo menino.

Na poesia,
nos braços da amada
nos braços da vida...
sempre um menino.

Porque ser poeta
é perseguir sempre o sonho
da inocência e da pureza.

Num constante desafio
de aproximar-se de Deus.
.
Tela:Frederick-Morgan
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FOLHAS SECAS
Dhenova & Wasil Sacharuk

Brisa que lambe os galhos
movimento que vem e vai
mostra no horizonte sereno
as folhas secas que caem

Folhas que cobrem a rua
em tons de cinza e dourado
fazem a dança tão crua
passos com tinta marcados

Sopro que seca os olhos
da lágrima que chega e cai
a rolar pelo chão de segredos
e das coisas que valem

Tardes que acendem luas
em tons de silêncio e brisa
galhos secos das folhas nuas
das memórias que passam lentas.
.
Tela: Scott Burdick
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24 de dezembro de 2013 
PRECE POEMA
Jenario de Fatima
Todos os direitos reservados

Se fosse um padre, ou um pastor em meus sermões,
Além das leis de Cristo e dos profetas
Eu citaria obras de alguns poetas
E mesclaria, poesia e orações...

É que os poetas e alguns poemas seus,
De tão amplos, profundos e tão bonitos,
Sugerem... Parecem assim escritos,
Assim escritos, com a inspiração de Deus.

Quando em momentos de medo e de agonia...
Quando respostas fogem-me a perguntas.
E mesmo a Bíblia em si mesma contraria.

E é confusa quando aborda alguns temas,
Aos céus eu ergo... Como em prece... As mãos juntas
E encontro Deus, entremeio alguns poemas.

Brasília, 09 de janeiro 2006
.
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POEMA DE NATAL
Vinicius de Moraes

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.
...
O poema acima foi foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 147.
.
CURTA minha página:



PAPAI NOEL ÀS AVESSAS
Carlos Drummond de Andrade

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam
por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.
...
Este poema foi publicado no livro "Alguma Poesia", Editora Pindorama em 1930, primeiro livro do autor.

Texto extraído de "Nova Reunião", Livraria José Olympio Editora
Rio de Janeiro, 1983, pág. 24. 
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O espinho ainda arde nas pétalas fincadas nos troncos nus
e há um silêncio absurdo preenchendo vazios da espera que
tarda e ainda fere a cicatriz.
[Ydeo Oga]
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Foto:Margot Vidal 
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EXPANSÃO
Ana Luiza
(coisas de Ana)

O acorde são os segredos
soltos pelo céu da vida
fazem dançar os passos
colher estrelas e reluzir
sonhos em abandonos de luz.

Sigo na vertigem vital
onde há sempre melodia
suspensa e inexata
mescla de notas
temperamentais

Contudo, o ritmo
incapaz de aprisionar
devolve-me à eternidade

Sigo, só!
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Tela: Edward Hopper
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PIADAS SURRADAS
Neto Madeiro

O palhaço sobe ao palco
conta suas piadas engraçadas,
o riso jorra da platéia.

Novamente no mesmo palco
as mesmas piadas surradas,
não tem a graça da estréia.

Nosso amor foi assim,
início de encanto e gargalhadas
e um fim de tristeza plebéia.

Mas o circo se instala de novo
e leva o palhaço a outras paradas,
expondo-o à alcatéia.

Destino de quem ama,
sina d'alma apaixonada.
Veneno na colméia.
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SER
Amaro Vaz Filho

Seja tarde, mas nunca seja ausente
Seja, apenas, limite, nunca o muro.
Seja, ainda, a luz, porque mora o escuro
... Na solidão, tristonha, do demente.

Seja manso, mas nunca seja um tolo
Seja, apenas, o que é seu, pode a visão
Desejar o que pertence ao seu irmão
E pensar, que na ilusão mora o consolo.

Seja o tronco, que alimenta o filho galho
Seja a estrada, mas nunca seja o atalho
Seja o sol, é preciso que haja luz.

Seja a sombra, nada mais lhe falta agora
Seja o tempo, saiba então fazer a hora
De crer em Deus, compreender a cruz.

(Carangola, 28 de novembro de 2007)
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Tela: Edward Hopper
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Não Diga o Meu Espelho que Envelheço
William Shakespeare
in "Sonetos (22)"
1564 - 1616

Não diga o meu espelho que envelheço,
se a juventude e tu têm igual data,
mas se os sulcos do tempo em ti conheço
então devo expiar no que me mata.

Tanta beleza te recobre e deu
tais galas a vestir a meu coração,
que vive no teu peito e o teu no meu.
Mais velho do que tu serei então?

Portanto, meu amor, cuida de ti
como eu, não por mim, por ti somente
te cuido o coração, que guardo aqui

como à criança a ama diligente.
Não contes com o teu se o meu morrer.
Deste-me o teu e o não vou devolver.
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MINHA PÁGINA:


CHOVE!
Lenise Marques

Chuvinha melancólica lá fora
A cidade pinga, goteja, escorre...
Em dias assim fico nostálgica
Voltam as dores de antigos amores
Relembro esquecidos adeuses
Qual lenços brancos acenando
Para velhos navios naufragados

Em dias assim...não sei porquê
se chove lá fora
A tristeza chega junto com os pingos
E chove também dentro de mim.
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Tela: John Sloan
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NATAL
Miguel Torga

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, actual,
Ergueu a mão e disse: — É noite de Natal,
Paz à imaginação!
E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas
Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quezilento,
Redemoinha e sai:

À volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?
Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?
.
Minha página:


DESPEDIDAS
Martha Medeiros

Despedir-se de um amor é despedir-se de si mesmo.
É o arremate de uma história que terminou, externamente,
sem nossa concordância, mas que precisa também sair
de dentro da gente.
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Tela: Edward Hopper
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As vezes nos perdemos
pelos caminhos.
Nos arrependemos de não ter dado
a certas pessoas o valor que elas tinham.
De ter dado a certas pessoas um
valor que elas não tinham.

Nos arrependemos
de ter falado coisas que não deveriam ser ditas.
De não ter falado coisas que deveriam ser ditas.
Talvez ai esteja o encanto da vida.
Viver por si só, é sempre recomeçar onde
se imagina ser fim.
[Jenario de Fatima]
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Tela: Edward Hopper
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NESTE NATAL..
Afonso Estebanez

Não deixes de mandar-me rosas
só por causa dos seus espinhos!
Entre as que são mais dolorosas
há intervalos para os carinhos...

Sei que às vezes são espinhosas
as bromélias de meus caminhos!
Mas não me prives de tuas rosas
só por causa dos seus espinhos!

Hoje eu quero rosas vermelhas,
rosas rubras como as centelhas
das chamas da lareira em paz...

Ah, e eu também te envio rosas
dentre tantas as mais formosas
do bem que o teu amor me faz!
.
Minha Página:


O ESPÍRITO DO NATAL
Ricardo Cerreia

Chegou o natal. Do pobre, do mendigo,
natal da mesa exposta sobre a rua,
da fome, da desilusão, alma nua
à luz da lua, tendo o céu como abrigo.

Natal da esperança, do sonho antigo,
da miséria que a vida perpetua,
de uma culpa medonha, minha e tua.
Natal tatuado em nós como castigo!

Natal da solidão do miserável
à míngua da migalha oferecida
das sobras do teu natal intocável.

O natal das esmolas, fratricida,
que a nossa indiferença imaculável
insiste em comemorar pela vida.
.
Tela do artista plástico Gilberto Geraldo.
.

Minha Página:


ESPERA ATROZ
Ângela Paula Lima

Meu corpo ainda guarda o teu calor
E a pele guarda o cheiro do desejo
A boca ainda guarda o teu sabor
Por ti ainda pulso e latejo

Ainda há teu toque em meu corpo
E o prazer colore minha tez
Tua luz ainda vibra em meu olhar
Te quero como na primeira vez!

Mesmo à distância, vibram os sentidos
Buscando em vão tua marca em meu leito
Descompassado bater do coração

Ao esperar tua volta, em agonia,
Sinto o desejo pulsar dentro do peito
E guardo ainda os toques da paixão.
.
TELA: François Boucher
.
Minha Página:



FINA ESSÊNCIA
Jenario de Fátima

A mulher em seu cerne, sua essência,
Seja ela anciã, seja menina,
Seja ela mulher rude, mulher fina,
Traz em si leves traços de inocência.

E durante toda sua existência,
Mesmo em hora que a vida lhe desatina,
Mesmo em hora que a angústia lhe domina
Ela age com cautela e com prudência.

Mas é claro, sempre existe exceção.
No entanto na imensa maioria
Quando se ouve o bater do coração.

Ela deixa-se levar na fantasia
E se acaso morre um sonho ou ilusão
Sofre mais, muito mais que se devia.
.
Tela: Henrique Oliveira
.

https://www.facebook.com/photo/?fbid=624268957635117&set=a.441251795936835


Escrever nem uma coisa
Nem outra -
A fim de dizer todas -
Ou, pelo menos, nenhumas.

Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.
Manoel de Barros


Minha Página:


SONETO XII
Roberto Camara

O silêncio nos leva o vento
Que nos mostrava direções,
Nos leva o fogo do conhecimento,
Leva o instrumento de algumas canções.

O silêncio cala aquela voz branda
De cuidado e carinho;
Que acolhia e dava confiança,
Ensinava e mostrava o caminho.

O tempo nos tira o calor dos dias letrados,
A sombra do deserto inocente...
As historias de aprendizados... Os causos.

O tempo nos mostra o tempo
De escrever aos queridos entes...
E guiá-los... Como fizeram no nosso momento
.
Minha Página:
.
Tela Vicente Romero Redondo 
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SONHOS E DESEJOS
Edir Pina de Barros.

Por toda noite assim te quis, querido,
nos meus lençóis de chita em desalinho,
a incandescer-me com o teu carinho,
num jogo de desejos desmedido,

tocando minhas carnes sem receios,
terno, a explorar os meus confins, cavernas,
beijando-me, fogoso, o colo, pernas,
o meu umbigo, meus cabelos, seios. ;

e a cavalgar-me sem pudor, sem pejos,
satisfazendo trêfegos desejos,
no jogo da luxúria, da paixão!;

e juntos explodirmos qual vulcão,
quase a morrer de amor nessa explosão,
gemendo quais rouquenhos realejos.

Livro: Pura chama, p. 92
.
Minha Página:
.
TELA: Vicente Romero Redondo 
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O que me agrada eu abraço, o que me chateia eu desprezo.
Tudo isso sem dizer uma palavra sequer.
Com isso tenho todo tempo do mundo para me preocupar
apenas com o que me apraz.
[Amaro Vaz Filho]
.
.
.
.
Minha Página:




MOCIDADE
Jenario de Fátima
Todos os direitos reservados

A intensa luz duma manhã perdida,
Perdida pelo passado remoto.
Num dia,mês...num momento ignoto,
Ressurge agora nálma renascida.

Num velho livro,já amarelecida,
Me encontro sorridente em rota foto.
A luz da minha aura(só agora noto!)
Emanava ao redor,tão refletida.

O que foi feito daquelas manhãs?
Porque tão pouco tudo brilha agora?
Há! porque será (filosofias vãs...)

Depois de a mocidade ir-se embora,
Eu acreditar em coisas tão pagãs...
Como eu ter sido um Deus,naquela hora!

Brasília, 08 de setembro 2005
.
Minha Página:
.
Tela: José Ferraz de Almeida Junior 
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O Tempo...A Vida...A Idade...
Talvez seja o tempo...a vida...a idade...
Mas a gente vai aprendendo a renunciar
a tanto que se quis...
A verdade é que me acomodei de tal modo
em minha infelicidade, que quase sou feliz...
__- J.G. de Araujo Jorge -__





O poema confirma: sonhar é uma imitação do voo. Só o verso alcança a harmonia que supera os contrários - a condição de sermos terra e a aspiração do eterno etéreo.

[MIA COUTO]
.


Minha Senhora de Quê
Ana Luísa Amarali

Dona de quê
Se na paisagem onde se projectam
Pequenas asas deslumbrantes folhas
Nem eu me projectei

Se os versos apressados
Me nascem sempre urgentes:
Trabalhos de permeio refeições
Doendo a consciência inusitada

Dona de mim nem sou
Se sintaxes trocadas
O mais das vezes nem minha intenção
Se sentidos diversos ocultados
Nem do oculto nascem
(poética do Hades quem me dera!)

Dona de nada senhora nem
De mim: imitações de medo
Os meus infernos 
Ver menos



O NATAL QUE JESUS QUER
Ana Barreto

Mais do que árvores e tantos enfeites
Nos preocupemos com as criaturas
Com gestos doces, de terna candura
Nos felicitemos com os seus deleites

Mais do que ceias fartas, com muita bebida
Nos preocupemos com os que sentem fome
Com os que nada tem, além de um nome
Com os que estão ao relento, sem guarida

Mais do que a esperada troca de presentes caros
Nos preocupemos com aqueles de sorrisos raros
Com os que carregam uma pesada cruz

Mais do que a dedicação a tanta futilidade
Nos dediquemos com ardor e com verdade
Ao que nos ensinou o nosso mestre Jesus...
.
.
Tela do artista plástico José Rosário



ESCUTO
Sophia de Mello Breyner
1919 - 2004

Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou deus

Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco.
.



lábios sedentos ardem
possuídos de seiva
enlouquecem outros lábios

ydeo oga


A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou.
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.
[Fernando Pessoa]
.
Tela: Silvana Oliveira
.


Quem sou eu?
Virgílio Teixeira

Pouco importa quem sou eu
De onde venho, para onde vou
Eu corro para te encontrar.
Para trás o que ficou
Foi um sonho que acabou
Só me resta recordar.

Se recordar é viver
Porque te vou esquecer?
Se te esquecer, é sofrer
Eu corro para te ver
Para ver o teu olhar
Para ao ouvido te dizer
O quanto te quero amar.
.
TELA: Paul Kelley



SONHO DE PAPEL
Nelson Rodrigues de Barros

Há quem faça do sonho o seu sol...
Há quem ame verdadeiramente sem fim.
Há rosas e espinhos juntos num mesmo jardim,
Há pólvora por todo o chão desse paiol.

E assim escrevo pra afogar o que não fui...
Sigo nessa reta sem pressa de chegar...
Vago estrelas num céu que se dilui...
É como morrer de sede ante ao mar.

Buscais na alvorada a paz desejada,
Que subjuga a dor que se deságua...
Numa aquarela tingindo o nosso céu.

E das espumas jogadas ao vento...
Sou apenas um pedaço de relento...
Rabiscado nesse sonho de papel.

Todos os direitos autorais reservados ao autor.
.

Onde nasce a poesia

29 de novembro de 2013

 ·

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade das tartarugas

mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

[Manoel de Barros}

.



VENCEDOR
Augusto dos Anjos
1884 -1914

Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E á rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!

Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.

Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois de um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,

Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pude domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!
.


A MORTE EM CORDEL
Dorothy de Castro

Serena veio a morte
Por fim à minha vida
Sem arranhão nem corte
E nem bala perdida...

Calada e silenciosa
Sentou´se à minha frente
Me deu algumas rosas
E um colo muito quente...

Pedi para rezar
Se houvesse um tempo é claro
No céu quero chegar
Dos anjos tendo amparo...

Falou comigo a dona
Chegou a tua hora
O mundo está uma zona
Vou te levar embora...

Não teve dó nem pena
De mim que não sou nova
Pensei usar por tema
Fazendo ultima trova...

Não é certo essa megera
Me levar sem dar aviso
Justo agora primavera
Eu poeta e sem juízo!



A VIGÍLIA DE HERO
(Manuel Bandeira)

Tu amarás outras mulheres
E tu me esquecerás!
É tão cruel, mas é a vida. E no entanto
Alguma coisa em ti pertence-me!
Em mim alguma coisa és tu.
O lado espiritual do nosso amor
Nos marcou para sempre.
Oh, vem em pensamento nos meus braços!
Que eu te afeiçoe e acaricie...

Não sei por que te falo assim de coisas que não são.
Esta noite, de súbito, um aperto
De coração tão vivo e lancinante
Tive ao pensar numa separação!
Não sei que tenho, tão ansiosa e sem motivo.
Queria ver-te... estar ao pé de ti...
Cruel volúpia e profunda ternura dilaceram-me.

É como uma corrida, em minhas veias,
De fúrias e de santas para a ponta dos meus dedos
Que queriam tomar tua cabeça amada,
Afagar tua fronte e teus cabelos,
Prender-te a mim por que jamais tu me escapasses!

Oh, quisera não ser tão voluptuosa!
E todavia
Quanta delícia ao nosso amor traz a volúpia!
Mas faz sofrer... inquieta...
Ah, como poderei contentá-la, jamais!
Quisera calmá-la na música... Ouvir muito, ouvir muito...
Sinto-me terna... e sou cruel e melancólica!

Possui-me como sou na ampla noite pressaga!
Sente o inefável! Guarda apenas a ventura
Do meu desejo ardendo a sós
Na treva imensa... Ah, se eu ouvisse a tua voz!

(Do livro Estrela da Vida Inteira, de Manuel Bandeira, editora Nova Fronteira)
.

ESQUECIMENTO
Florbela Espanca

Esse de quem eu era e era meu,
Que foi um sonho e foi realidade,
Que me vestiu a alma de saudade,
Para sempre de mim desapareceu.

Tudo em redor então escureceu,
E foi longínqua toda a claridade!
Ceguei...tateio sombras...que ansiedade!
Apalpo cinzas porque tudo ardeu!

Descem em mim poentes de Novembro.
A sombra dos meus olhos, a escurecer.
Veste de roxo e negro os crisântemos.

E desse que era meu já não me lembro.
Ah! a doce agonia de esquecer
A lembrar doidamente o que esquecemos!
.



GAROTA DE ALUGUEL
AMARO VAZ

Pinta a boca com as infinitas cores
De quem mendiga, um prazer alheio.
Teu pão de cada dia é sem recheio
A fome não sacia os teus pudores.

As tuas noites são feitas de calçadas
Em ruas frias de silêncios mórbidos.
Os teus prazeres são desejos sórdidos
Que voam as desumanas madrugadas.

O filho vive o ventre do abandono
Enquanto, no dia, dorme inteiro sono
Aquela atriz a quem cabe o papel.

De dar à vida um preço miserável
Num beijo de sabor tão deplorável
Vendendo o teu corpinho de aluguel.
.


DISCRETA SÚPLICA
Csokonai Vitéz Mihály
'Poeta Doctus' -
1773 - 1805

Do poderoso amor
dói-me fogo consumido.
Podes ser na chaga bálsamo,
formosa breve tulipa.

Teu lindo brilho dos olhos,
fogo vivo da aurora;
de teus lábios o orvalho
mil cuidados me devora.

Dá em tua voz de anjo
o que teu amante roga:
com mil beijos de ambrosia ....
.


"Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos. Isso é verdade em toda a escala do amor. No amor sexual buscamos um prazer nosso dado por intermédio de um corpo estranho. No amor diferente do sexual, buscamos um prazer nosso dado por intermédio de uma ideia nossa."
[Fernando Pessoa]
Fonte - Livro do Desassossego
.
MINHA PÁGINA:


PROPAGANDA ENGANOSA
Amaro Vaz

Eu te prometo, minha doce amada
Em pouco tempo perderei meu peso.
Não posso esmagar tua florada
E emagrecendo serei ágil e teso

O teu escândalo é um quase nada
Se comparado às vezes em que fui preso
Por causa dos meus gritos nas pegadas
De um violino frágil e indefeso.

Sou tão lascivo em minhas luxúrias
Tão eloquente nas minhas lamúrias
Escandaloso nos mais loucos cânticos.

Que andam dizendo por toda a cidade
Que embora tenha uma avançada idade
Sou a semente dos últimos românticos.
.



LINDA!
Machado de Carlos

Cantei milhões de versos de prazer:
arranquei, raios e raios, do grande Sol,
(presentes no limiar da viva chama...)
ouvi as lindas canções do rouxinol.
- Havia fachos de luzes nesta cama!
.

AINDA TUA
Angela Lara

Sempre chegas em minha saudade
nos fins de tarde
quando estou sozinha...
chegas de mansinho
percorrendo meu sangue devagar
imagino teu pensamento
se pensas em mim
em algum momento
e sem me importar
continuo te esperando,
mesmo que para sempre
eu tenha a ti
apenas dentro do peito
choro por dentro...
um choro calado
que me aproxima de ti
e chega a noite
adivinho teu quarto
teus livros
teus óculos
a luz da cabeceira
as frases inteiras
que me fizeram te amar
penso em ti
sendo tua, ainda
mesmo que nunca mais...



A Partida
Augusta Schimidt

Um dia terei que partir...
Mas ficarão os pássaros
Ficarão os jardins,
As flores, as borboletas, as cores...

Um dia terei que partir...
Mas ficará o céu azul,
O sol, a lua, a noite
Coberta com seu véu de estrelas...

Ficará o mar que tanto amo
E nele deixarei meu rastro
De memória, de historias, de saudades...

Deixarei um amor
Que nasceu grande,
Cresceu grande
E grande se perpetuará.




ENTRE AS JANGADAS
Danniel Valente

O meu amor pela arte
confunde o meu sentido
do que é o amor.

Inevitável não ver as coisas
e não querer delas o sumo:
a poesia.

Vejo um barquinho avariado
e tento tirar dele, todo sentimento,
espremê-lo até a última gota de beleza.

E toda vez que olho
o mesmo barquinho,
há sempre um novo jeito de vê-lo
e de expressar o seu vasto mundo.

Então, eu sigo quase cego
de tanto enxergar esses amores
que ficam entre as jangadas,
esquecidos sob os coqueiros.


FIM DE CASO
Ana Barreto

Um beijo, um abraço na partida
Sem lágrimas de pranto ou despedida
Apenas meu calor, pra te consolar

Sem certeza do dia, lugar ou hora
Apenas te dizendo "vou embora"
E você crendo que um dia vou voltar!
.


Tanta luz
Jenario de Fatima

Ó tu que tudo reclama.
Ó tu que tudo maldiz.
Que vive inventando drama
e com que tem nunca é feliz.

Olhe pra tarde que inflama
em rubra e viva matiz.
Olhe a verdejante rama
onde brota a flor de lis.

Olhe e agradeça a Deus
pela luz dos olhos teus
porque se acaso perdê-la.

verás que toda ambição
não vale a menor porção
do brilho dálguma estrela.


Uma Porta acabou de ser aberta numa rua
Emily Dickinson
1830 - 1886

Uma porta acabou de ser aberta numa rua –
Eu, perdida, estava passando –
E um átimo de quentura foi liberado,
E de riqueza e companhia.

A porta se fechou repentina, e eu,
Eu, perdida, estava passando –
Perdida em dobro, mais pelo contraste,
Esclarecedora miséria.
.



DEPOIS DA SAUDADE
Mary Bueno

Depois da saudade eu tento esquecer
escolhendo caminhos coloridos
como se fossem luzes no infinito
e em outros braços eu vou me aquecer.

Depois da saudade é só renascer
como se fosse um ser predestinado
a caminhar em um céu estrelado
esperando feliz o alvorecer.

Sentindo o amor brotar mais uma vez
desnudo a minha alma no profundo
êxtase do macio da tua tez.

Espírito, matéria, alma e luz
no somatório, toda a minha força
me inclinam a você que me conduz.
.

NEGRA ROSA
Dorothy de Castro

Eu sou preta como o piche
Jabuticaba, azeviche
Mãe Africa me pariu...

Quem sabe a história revele
Que o calor da minha pele
Nenhuma branca sentiu...

Tenho cheiro adocicado
Do mais sublime melado
Da cana boa do engenho...

Lábios grossos invejados
Convite aos beijos safados
Posso afirmar: só eu tenho...

Bunda roliça empinada
Curvas bem arredondadas
Sou mulher deliciosa...

Eu sou preta como piche
Se me quiseres, capriche
Vais amar a negra rosa!
.



SE CADA DIA CAI
Pablo Neruda
1904 - 1973

Se cada dia cai, dentro de cada noite,
há um poço
onde a claridade está presa.

Há que sentar-se na beira
do poço da sombra
e pescar luz caída
com paciência.

É erótico ver uma mulher que sorri, que chora,
que vacila, que fica linda sendo sincera, que fica
uma delícia sendo divertida, que deixa qualquer
um maluco sendo inteligente. […]
Não conheço strip-tease mais sedutor.
[ Martha Medeiros]



NADA SE PODE COMPARAR CONTIGO
Manuel Maria Barbosa du Bocage
1765 // 1805

O ledo passarinho, que gorjeia
D'alma exprimindo a cândida ternura;
O rio transparente, que murmura,
E por entre pedrinhas serpenteia;

O Sol, que o céu diáfano passeia,
A Lua, que lhe deve a formosura,
O sorriso da Aurora, alegre e pura,
A rosa, que entre os Zéfiros ondeia;

A serena, amorosa Primavera,
O doce autor das glórias que consigo,
A Deusa das paixões e de Citera;

Quanto digo, meu bem, quanto não digo,
Tudo em tua presença degenera.
Nada se pode comparar contigo.

in 'Sonetos'



Deixei atrás os erros do que fui
Fernando Pessoa
1888 - 1935

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.
.
Minha Página:


AQUI A MULHER
Dorothy de Castro

Deslisa nos meus ombros a alça do vestido...
Vermelho pano cetinoso e lindo...
Deixando à mostra meus seios pequeninos...

Me deito e espero pelas tuas mãos...
A luz é fraca, quase que apagada...
O Edredom escorregando ao chão...

Aqui tens a mulher que cobiçaste...
Venha pra perto de mim, te espero...
Através da cortina chega a lua...

A minha pele treme de desejos...
Chegaste amor, já ouço teu sussurro...
Veja, estou nua...Me cubra só de beijos!
.


URGENTEMENTE
Eugénio de Andrade
1923 - 2005
in "Até Amanhã"

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
.
TELA: Jules Scalbert


CANÇÃO DO VENTO
Manuel Bandeira

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de frutos, de flores, de folhas

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de aromas, de estrelas, de cânticos

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.


Dorothy L'amour
Ednardo

Dorothy L'amour
Com amor te matei
Sereia, n'areia do cinema
Dorothy L'amour
Com ardor te adorei
O drama da primeira fila
Adorei o drama
O teu sabor azul
Estranho como a primeira
A primeira coca-cola

Era miragem
Fantasia de um mundo blues
E eu fui chorar
Na areia Dorothy L'amour
Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul

A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour

Por que sangrar
Meu nativo coração do sul
Ah eu fui naufragar
Em teus olhos de mar azul

A tua cor
O teu nome mentira azul
Tudo passou
Teu veneno teu sorriso blues
Ai, hoje eu sou
Água-viva dos mares do sul
Não quero mais chorar
Te rever Dorothy L'amour
...
NOTA: Dorothy Lamour - pseudônimo de Mary Leta Dorothy Slaton.
Atriz de cinema norte-americana.
(1914 - 1996)



MENINA & MULHER
Afonso Estebanez Stael

É algo de mulher que me fascina

nesse teu jeito etéreo de me amar
como nuvem que a lua descortina
no corpo dos lençóis entre o luar...

É algo de mulher que me alucina
perene amor que mata sem matar
uma parte mulher e outra menina
ditoso amor de meu eclipse lunar...

É algo que me encanta de tal jeito
e sangra sem doer dentro do peito
e alegra-se do sim na dor do não...

E me ama no regresso do menino
homem feito na linha do destino
já transcrito a punhal no coração...



PROCURANDO ESTRELAS
Lago Burnett
1929-1995
in Estrela do Céu Perdido / l949

Faz frio! vou em busca de agasalho,
oh! lágrimas... (e luto por contê-las!)
olhos abertos, procurando estrelas,
sigo, e na estrada, minha mágoa espalho.

As flores choram lágrimas de orvalho,
lágrimas vivas, trêmulas e, ao vê-las,
vejo toda a criação chorando pelas
folhas a balançar em cada galho.

Sigo tristonho... Baila pelo espaço
o lamento das cousas que ficaram
sem um amor, sequer, para entendê-las.

Deixo um pouco de dor por onde passo...
Paro. Olho o céu. As mágoas debandaram
ante o esplendor do riso das estrelas!
...



COM LICENÇA POÉTICA
Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade da alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
.

TEMPO
Jorge Cortás Sader Filho

Tempo de amar com ternura
De meditar com alma pura
Se o que a vida oferece
É sempre mais uma prece.
Tempo que vai e não volta
Que não precisa de escolta
Para passar no campo molhado
De tanto o pranto chorado.

Vai tempo!
Diga a esta gente sofrida
Que é esta nossa vida,
Incerta e não sabida.
Diga também com calor
Que todo o meu ardor
É só um ato de amor
Nesta dura subida...

Tela: Léo Costa
.



HÃO DE CHORAR POR ELA OS CINAMOMOS...
Alphonsus de Guimaraens
(1870-1921

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — "Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. . "
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos...
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — "Por que não vieram juntos?"



FESTA DE DESPEDIDA
Amaro Vaz Filho

Vestiu, apenas, umas gotas de perfume
O quarto encheu de flores e de velas.
Deixou fechadas todas as janelas
No teto desenhou uns vaga-lumes.

No seu criado-mudo, um cinzeiro
Servindo de apoio, para o incenso.
Com loucas artimanhas e bom-senso
Pintou seu corpo nu no travesseiro.

Na cama espalhou umas almofadas
Deixou todas as fotos espalhadas
Algumas na parede, outras no chão.

A noite inteira, me amou com garra
Fez dengo e festa, uma grande farra
Pra comemorar nossa separação.
.




DAS PARTIDAS E PARTILHAS
Paulo Bomfim
in Praia de Sonetos-1981

Sou feito de partidas e partilhas,
Aeroporto fantasma, cais incerto,
Habitante do adeus, céu encoberto,
E sentimentos que povoam ilhas.

De mim foram soprando tantas milhas
Que às vezes olho para o mar aberto
E indago se sou eu que me deserto
Ou sou apenas a canção das quilhas.

Na solidão que vem das águas bravas,
Povôo geografias de meu mundo
E me solto no império das palavras.

Sobre meus ossos lança-se uma ponte:
Entre a terra que sou e o céu sem fundo,
Meus mortos recriando esse horizonte!
.



ESSE PERFUME
Emiliano Perneta
(1866 - 1921)

Esse perfume — sândalo e verbenas —
De tua pele de maçã madura,
Sorvi-o quando, ó deusa das morenas!
Por mim roçaste a cabeleira escura.

Mas é perfídia negra das hienas!
Sabes que o teu perfume é uma loucura:
— E o concedes; que é um tóxico: e envenenas
Com uma tão rara e singular doçura!

Quando o aspirei — as minhas mãos nas tuas —
Bateu-me o coração como se fora
Fundir-se, lírio das espáduas nuas!

Foi-me um gozo cruel, áspero e curto...
Ó requintada, ó sábia pecadora,
Mestra no amor das sensações de um furto!

Publicado no livro Ilusão (1911).
.


PROFUNDEZAS
Karla Julia

Imaginei passeios, amores,
arrisquei um beijo,
descartei certos pudores.

Não tive escolha,
ele deu-me uma ilusão.
A realidade... essa, desapareceu
na esquina, junto com ele.
O que restou foi o frio
e mil calafrios.

SOLIDÃO
Maria Rita Bomfim

Analisando minha longa solidão
Descobri, era minha companheira
Habitava sem medo meu coração
E dominava minh'alma inteira

Guardava-me de sonhos loucos
Dando-me a certeza do caminho
Mas dela larguei aos poucos
Ousei sonhar um carinho

Hoje sonho e penso nela
A solidão que me guiava
Triste olho pela janela

Feliz era quando não sonhava
Quando sentia firmeza
E por você não chorava.
.


Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
[Mario Quintana]
1906 - 1994



A falta de Erico Verissimo
Carlos Drummond de Andrade
(Homenagem ao amigo Erico Veríssimo)

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.
.




SONHO DOS ANJOS
Claudia Dimer

Não sabem? essa vida é nada mais
Que sonhos irreais, enternecidos,
Dos anjos que dormiram, languescidos,
Sonhando ter a vida dos mortais.

E as mortes que nos causam tantos ais
São sonhos, lá no céu, interrompidos,
Dos anjos que acordaram com ruídos
Nas portas das entradas celestiais.

Ó anjos tão cruéis, por que acordais?
Só para dar um fim a nós sofridos?

Os vossos sonhos são por nós vividos,
Quando terminam... ah! Nos dói demais!

Tela: Pino Daeni


AMBICIOSA
Florbela Espanca
1894 - 1930

Para aqueles fantasmas que passaram,
Vagabundos a quem jurei amar,
Nunca os meus braços lânguidos traçaram
O vôo dum gesto para os alcançar...

Se as minhas mãos em garra se cravaram
Sobre um amor em sangue a palpitar...
- Quantas panteras bárbaras mataram
Só pelo raro gosto de matar!

Minha alma é como a pedra funeraria
Erguida na montanha solitária
Interrogando a vibração dos céus!

O amor dum homem? - Terra tão pisada,
Gota de chuva ao vento baloiçada...
Um homem? - Quando eu sonho o amor de um Deus!..."
.



Para as traições, para as mentiras, para o que é
vil e falso, tem a gente remédio: Tem o orgulho;
Mas para a dor que te faz mal, para essa nenhum
remédio há.
[Florbela Espanca]
1894 - 1930



SAUDADE DE CASA
Ana Barreto
Ah, cruel e sorrateiro tempo
Traga, urgente, um alento
Pra essa saudade sem pausa...
Ou mate-a em mim sem sutileza
Plante-me no peito a certeza
De que posso ganhar asa...
E voar de volta para de onde vim
Curar de vez essa falta sem fim
A triste dor que o meu peito abrasa...
Ah, cruel e voraz geografia
Me permita somente uma alegria:
A de pisar o chão da minha casa...





DESEJO IMORTAL
Vera Pimentel
(Vera Feliz )

Quando estás aqui,quando me enlaço
em teus braços nesse amor surreal
Por Deus...nem sei o que sinto ou faço
tenho delírios ,entrego-me, é tão real.

Sinto teus lábios nos meus...teu gosto
na mistura de sabores nunca imaginados
é meu o prazer que vejo em seu rosto
Mágica do amor..ver com olhos fechados.

E segue-se o desejo em altas madrugadas
numa alucinação que cega meus sentidos
ouço os gritos de amor nas horas caladas
sob os lençóis corpos suados,confundidos

Quando estás aqui,nos amamos esquecidos
Nosso amor é um incêndio louco, sensual
Desejamos morrer por esse calor vencidos
num sublime prazer...num desejo imortal...!
.





INCOMPLETA
Ana Barreto

Partes do que sou eu
São pedaços tão teus
Que nem me atrevo a resgatar
São fagulhas e centelhas
De emoções tão verdadeiras
Que não ouso explicar
São resquícios de emoção
Do meu louco coração
Que insistiu em te amar
São defeitos e virtudes
São as tuas atitudes
Que me ponho a recordar..



BRISA
Ana Luiza ( coisas de Ana)

filha do vento, lírica
nascida dos tons pastéis
refém dos anos, musicada
esquecida na coreografia
da luz

faz-se o resgate do passo,
expande-se o movimento
e ela dança preenchendo
os amanhãs

transpõe a tela
ouve-se a melodia
é brisa, amor, criação.
.


Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego... (...)

Fernando Pessoa
in "Cancioneiro"



ELA
Roberto Camara
(A um amigo que se foi)

Chega, e sem pedir licença
vai arrancanto tudo:
- história, sentimentos, sentidos,
memórias, lembranças, amigos,
família, futuro, sonhos...
e se vai sem dizer adeus.

Chega, e sem pudor desnuda a fragilidade;
sem perdir desculpas arranca a alma
im-pi-e-do-sa-men-te,
do-lo-ro-sa-men-te
deixando como aviso, da sua passagem,
o último grito.

(Setembro de 2013)





NOVA POESIA
Danniel Valente

Deixemos
para a futura geração
o desafio da nova poesia

Não sei dizer refri
para o refrigerante,
não sei fazer um link

Não aprendi a sorrir
apenas com a letra K

Para a futura geração;
a flor que saiu do jardim
e se move na tela

A paisagem mudou-se
para o notebook;
os poetas são mais solitários

Meu Deus!
Eu nem me dei conta do meu barquinho,
também mudou de rio, de mar
...


Quando as nossas dores desaparecem.
Os dias nublados cedem ao brilho do sol.
Recuperamos depois das lutas,a força.
E nossos corações se acalmam.
Acredito que é Deus nas entrelinhas,
avisando-nos que estamos prontos
pra recomeçar.
[Diléia Marrod]



EI MOÇO!
Dorothy de Castro

Me disseram que amanhã
é o dia da criança...
Dia de festas, presentes,
doces e refrigerantes !
Roupa bonita, sapatos,
Brinquedos importados,
do outro lado do mundo,
fabricados no japão...
Me disseram até,
que tem um programa na tv
para festejar esse dia...
Disseram também que a criança,
é a esperança do mundo!
Mas que criança ?
De que mundo ?
Com certeza essas pessoas,
não estão falando de mim...
Falam de outras crianças,
Aquelas que vão à escola,
Que nunca pediram esmola,
Que sequer olham pro lixo,
Onde eu fuço como um bicho,
Pra ver se acho comida...
Crianças limpas bonitas...
Com tenís de marca e tudo,
De mãos dadas com seus pais !
Seguras de seu futuro.
A criança que sou eu,
É diferente daquelas...
Muitos estão nas favelas
E outros vivem nas ruas...
Não temos medo de nada,
Nem da chuva, nem do escuro!
Só temos medo da fome,
Essa sim é bicho feio...
Machuca a gente por dentro,
Dói como golpe de faca,
Mata igual bala perdida,
Acerta o estomago em cheio!
E ai ? você não diz nada ?
Ah! já sei está com pressa...
Porque as lojas vão fechar !
Mas olha, se te sobrar um dinheiro,
Compre um pouco de esperança...
E distribua com a gente,
Nesse dia da CRIANÇA !!!

Tela: Mian Situ







Felicidade? Há quantas? Eu não sei!
0u não encontro aquela que procuro,
ou não procuro aquela que encontrei!
[Claudia Dimer]



AS FACES DA VIDA
EACoelho

Vendaval... ou somente brisa,
Tormenta... ou somente fina garoa,
Flores... ou afiados espinhos,
Perfume... ou fétido odor.

Assim é a vida,
Sempre com duas faces, dois lados,
Resta-nos estar emocionalmente vocacionados,
Para enxergar o que preferimos.



MULHERES
Marisa Schmidt

Mudam os corpos e rostos
as cores e suas feições
trazendo penas e gostos
nas sutis imperfeições

São pernas, braços e bocas
compondo humana paisagem
nem só santas, nem só loucas
se equilibram na voragem

Vivendo a vida que podem
nas engrenagens que movem
este mundo tão confuso

São mães, amantes, sementes
que descansam intermitentes
a cada volta do parafuso...

Tela: Eric Wallis




Indiferença
Guilherme de Almeida
1890 - 1969

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais! 
V


lacrimejante
Joakim Antonio

lágrimas são doces, brotam salgadas
ferem, queimam a pele
ardem na alma que em defesa abre o peito
e retira um pouco do que o faz chorar.
...
Tela: Francine Van Hover




Como hei de eu, de hoje em diante,
Viver, depois que partires?
Como queres tu que eu cante
No dia em que não me ouvires?
Tem pena de mim! tem pena
De alma tão fraca! Como há de
Minh’alma, que é tão pequena,
Poder com tanta saudade?

[Olavo Bilac]
1865-1918

Tela: Steve Johnston 



A saudade é um sentimento que nos tira pra
dançar na chuva,pra que possamos passar por
ela bailando com,ou sem sofreguidão.
[Diléia Marrod]
— com Léia Marrod.




NA MADRUGADA
Ana Barreto

O vento me chegou, é madrugada
Não é o mesmo que me traz o dia
Não traz consigo a mesma harmonia
E sempre chega-me em hora errada.

Me tomou num pequeno pesadelo
Alterou batimentos e o coração
Ringiu, balanceou minha emoção
E eu, poeta, fui-me aos seus desvelos

Está tão frio... É fria a madrugada,
Porém não quero ao vento dar morada
E muito menos estar a sua espreita

Somente minha alma tão enamorada
O ignorou e em forma apaziguada
Cantou-me ao ouvido... Deita poeta, deita...


Tela: Jeff Rowland 
Ver menos




ESTA SAUDADE
JG de Araújo Jorge

Esta saudade és tu... E é toda feita
de ti, dos teus cabelos, dos teus olhos
que permanecem como estrelas vagas:
dos anseios de amor, coagulados.

Esta saudade és tu... É esse teu jeito
de pomba mansa nos meus braços quieta;
é a tua voz tecida de silêncio
nas palavras de amor que ainda sussurram...

Esta saudade são teus seios brancos;
tuas carícias que ainda estão comigo
deixando insones todos os sentidos.

Esta saudade és tu... é a tua falta
viva, em meu corpo, na minha alma, viva,
... enquanto eu morro no meu pensamento. 
Ver menos

Silenciosamente
Marçal Filho

Nesse triste cenário estranho,
sou mesmo andorinha
cativa dum amor sem limites
perdida sem teu verão
.
Então, nas horas tristes
sufoco meu pranto,
entre o silêncio do quarto,
a caneta, o papel e a solidão.

Itabira MG
22/09/13


Tela: Erika Craig 
Ver menos


Novamente primavera
Indiferente às geadas
Ao frio que hiberna
Onde sonhos se agasalham
E se segredam, talvez renasçam
Feito as sementes adormecidas
Em promessas de flores.
Novamente, primavera
Perderam-se algumas folhas
A nudez dos galhos ruboriza-se
E ensaia as primeiras vestes.
Pólens viajam nas asas do vento
Ouve-se mais cedo o piar dos ninhos
É a vida que se debruça na janela
O sol que nasce mais cedo.

É primavera, estou viva!
Sobrevivida bobamente ao caos
Dos que não seguem a vida.

É primavera e só por isso, estou feliz!

Ana Luiza (coisas de Ana ) 
Ver menos




Fugir da solidão é uma forma de
evitar o encontro com nós mesmos.
(Diléia Marrod)
— com Léia Marrod.




Retirada
Flora Figueiredo

Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.
É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo. 
Ver menos





Despedida
Edir Pina de Barros

Enquanto a lágrima treme
Nos teus olhos, nos seus cantos,
Aqui me morro d’encantos,
Enquanto a lágrima treme,
Minh’alma dorida geme,
E desfaz-se toda em prantos...
Enquanto a lágrima treme
Nos teus olhos, nos seus cantos...

Enquanto a lágrima treme
nos teus olhos, nos seus cantos,
os meus sofreres são tantos,
enquanto a lágrima treme,
como uma estrela que freme,
no véu da noite, seus mantos,
enquanto a lágrima treme,
nos teus olhos, nos seus cantos! 
Ver menos

Peço desculpas,mas tive que excluir o cartão anterior e reformatar, estava sem a última frase.
.............
Cai sobre mim mais um aroma noturno.
Com o canto demente.
Que invade os porões.
Que impunha a lança.
Que prevê o naufrágio.
Que delineia a tela.
Do beijo da vida.
Que grita a arte.
E contempla a mãe terra.

Diléia Marrod 
Ver menos



SE TE AMO, NÃO SEI!
Gonçalves Dias
1823 - 1864

Amar! se te amo, não sei.
Oiço aí pronunciar
Essa palavra de modo
Que não sei o que é amar.

Se amar é sonhar contigo,
Se é pensar, velando, em ti,
Se é ter-te n'alma presente
Todo esquecido de mim!

Se é cobiçar-te, querer-te
Como uma bênção dos céus
A ti somente na terra
Como lá em cima a Deus;

Se é dar a vida, o futuro,
Para dizer que te amei:
Amo; porém se te amo
Como oiço dizer, — não sei. 
Ver menos


Me conte uma historinha
destas que fazem dormir.
Fale de uma andorinha
que por não ter onde ir
voou em rumo as estrelas
até não mais poder vê-la
ate quando escureceu.

Então não quis mais subir
cansada, veio cair
nos versos do livro teu;

Jenario de Fatima
Todos os direitos reservados 
Ver menos





RIO EM MIM
Claudeciano Alves

Este rio de dor, mágoa e desgosto
Que há muito trago dento em mim correndo
a superfície árida do meu rosto
vai feito um veio em meu olhar vertendo.

Rio perene... e sempre a contragosto
vai do seu curso, a correr, se perdendo,
e sempre seguindo em seu sentido oposto
corta o meu peito deserto trazendo

tristezas, mágoas e dores sem fim
que eu escondera cá dentro de mim...
rio que segue a correr sem parar.

Rio que, um dia, nasceu em meu peito
e fez de meu ser todo o seu leito,
rio que nunca encontra o seu mar. 
Ver menos


CARÍCIA
JG de Araujo Jorge

Foram tuas mãos... ou apenas o sol que saiu
de uma nuvem para tocar-me...




E não posso evitar que seja assim:
as estradas levando a memória
do quanto eu ando de rosas
nas veredas do meu jardim...

Afonso Estebanez


SEGREDOS À LUA
Telma Moreira

Lua! Oh, lua majestosa de meu encanto!
Tua face são as fases da minha história...
No céu, luz noturna que almejo tanto...
Tua forma é fonte de minha memória!

Não te mínguas a toda dor ou pranto,
Não te fira injúria, lua cheia de glória!
Seja nova, cada noite, em meu canto,
Cresça e brilhe nessa tua trajetória!

Junte aos teus, os meus íntimos segredos,
Ouça-me os planos, os sonhos e enredos...
Não abandone os humanos sonhadores!

Se o poeta faz estrelas de brinquedos,
Teu brilho dissipa meus muitos medos
E são teus filhos, meu verso e louvores... 
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Inquietação
J.G.de Araujo Jorge

Não são as ondas, não são os ventos...
Nos rios subterrâneos do meu sangue
há velas brancas, desesperadas...





Nada é mais pavoroso,
Nem mesmo o medo do escuro
Do que a dor de te buscar
E não te achar, quando procuro...

Ana Barreto








Aos 55 anos do senhor D.João VI
Maria Josefa Barreto
1786 - 1837

Lá onde o Tejo undoso ufano pisa,
Dos brilhantes lauréis já despojada,
De fúnebre cipreste a fronte ornada,
Lísia envolvida em pranto se divisa.

Na saudade cruel que a penaliza,
Invejosa suspira, consternada,
Quando América assaz afortunada
A glória de João imortaliza.

No seu erguido trono brasileiro,
Fundador de uma nova monarquia,
Qual de Ourique Afonso, Rei primeiro,

Ditando sábias leis, já neste dia
De onde lustros o giro vê inteiro
O grande filho da imortal Maria. 
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ALI POETA
Dorothy de Castro

Ali eu chegava louca
Tirava a roupa
Beijava a boca
Que ele oferecia...

Ali numa tarde fria
Eu bem Maria
Com simpatia
Me via lua...

Ali me sentia sua
Mulher inteira
Na vez primeira
Já estava nua...

Ali por amor ao verso
Te usei por tema
Te fiz poema
Te amei
Te amei! 
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SONHO EXAGERADO
Amaro Vaz

Peguei o sonho que aconteceu
No meu silêncio vago e solitário
Acomodei no meu imaginário
Para que fosse algo sempre meu.

Porque ao sonho é dado entender
Que a esperança sempre nos socorre.
Dizer que ela é a última que morre
Soa esquisito, pra quem só quer viver.

Nosso melhor momento é o presente
E aquelas coisas que a gente sente
Tendo o futuro como um aliado.

Não me entenda mal, deixa rolar
Somente o tempo pode nos mostrar
Qual de nós dois sonhou exagerado. 
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QUE ME PEDES
Antônio Gonçalves Dias
1823 - 1864

Tu pedes-me um canto na lira de amores,
um canto singelo de meigo trovar ?!
Um canto fagueiro já - triste - não pode
na lira do triste fazer-se escutar.

Outrora, coberto meu leito de flores,
um canto singelo já soube trovar;
mas hoje na lira, que o pranto humedece,
as notas d'outrora não posso encontrar !

Outrora os ardores que eu tinha no peito
em cantos singelo podia trovar;
mas hoje, sofrendo, como hei de sorrir-me,
mas hoje, traído, como hei de cantar ?

Não peças ao bardo, que aflito suspira,
um canto alegre de meigo trovar;
a lira quebrada só restam gemidos,
ao bardo traído só resta chorar. 
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"Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor."
Romanos 8:38-39

Tela: Daniel F. Gerhartz

O LAGO
Narcisa Amália
(1852 - 1924)

Calmo, fundo, translúcido, amplo, o lago
longe, trêmulo, trêmulo, morria.
No seu límpido espelho a ramaria,
curva, de um bosque punha sombra e afago.

Terra e céu, ondulando, eram na fria
tela fundidos! O queixume vago
que a água modula, de ambos parecia,
solto, ululante, intérmino, pressago!

- "Trecho vulgar de sítio abstruso e agreste"
talvez; mas todo o encanto que o reveste
sentisses; contemplasses-lhe a beleza;

comigo ouvisses-lhe a mudez, que fala,
e sorverias no frescor que o embala
todo o alento vital da Natureza! 
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CULPA DO ADEUS
Vera Feliz

Até andei em novas companhias
sorri , passei em outros lugares
e li os versos de outras poesias
tentando abafar os meus pesares

E de repente tua lembrança vem
numa canção que diz ,você não volta
ouço tua voz e não vejo ninguém
são só delírios de minh'alma morta

E volta a dor que teu adeus deixou
e a saudade que não me abandonou
bate em meu peito reabre a ferida

E volta o pranto ,eu choro a agonia
e a cada noite ou sol de um novo dia
fico a esperar tua volta em minha vida. 
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— com Claudeciano Alves e 
2 outras pessoas
.



Altar sombrio
Claudia Dimer

No mundo, onde alegria é cultuada,
E ser contente é quase obrigatório,
Onde o infeliz jamais será notório,
Eu louvo a minha dor amargurada!

Minha tristeza é mais glorificada!
O meu prantear, bem mais satisfatório!
Fiz um Altar sombrio - um oratório
Onde eu invoco a minha dor amada!

E assim, escrevo versos de ansiedade,
De magoas, de agonias, de saudade,
Versos de quem a paz não deu valor...

Um dia algo feliz bateu-me à porta;
Eu não abri... e na alegria morta
Deixou seu nome escrito: Eu sou o amor!... 
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As vezes me penso flor,
em outras só a semente,
ora me vejo sem cor.
Depois em um brilho ardente.
Talvez seja um pecador,
mas posso ser inocente.
Quase nada sei de mim,
vivo quase sempre assim
entre ser alma e ser gente.

[Jenario de Fátima]
Todos os direitos reservados 
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POR ONDE ANDA A FELICIDADE?
Claudeciano Alves

Passaste todo este dia
de manhã... e toda a tarde
esperando com euforia
uma tal felicidade.

Mas a noite foi surgindo
e tua esperança morta,
quando ela bateu à porta
tu já estavas dormindo.

E ela ficou esperando
sentada, ao lado de fora,
mas cansou-se e foi embora
pela estrada caminhando.

De manhã, pela janela,
tu a Viste sumir além...
Foi procurar outro alguém
que espera e acredita nela! 
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As vezes eu passo sob as lâmpadas
de minha rua a noite e fico pensando:
Quem e o que, passará por estas luzes,
nestas horas da noite, daqui a cem anos
além de meu fantasma?
[Jenario de Fatima]

Tela: Mark Spain

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CONTRATEMPO
Nédia Sales de Jesus

A sede de viver não fôra, ainda, saciada:
Faltou tempo!
Profecias foram cruelmente cumpridas:
Contratempo!

Sem prévio aviso,
Labaredas se anteciparam.
Ceifou-se o fogo da juventude
E há agonia nos que ficaram.

Fumaça e cinzas ainda insistem,
Impossível fingir não vê-las.
Foi-se embora o amanhã,
Apagaram-se as estrelas. 
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BUSCA INSANA
EACoelho

Se buscas um grande amor,
Recheado de paixão infinda,
Composto de sedução perene,
Então que prepares o coração,
Para as dores da eterna busca - entre lamentos.

Se assim queres e teimas,
Saibas que não buscas nada,
Apenas sonhas acordado,
Apenas vagueias na ilusão,
Vives as cores das quimeras - pintadas a uma só mão.

Se queres encontrar um par,
Se te contentas em sonhar a dois,
Em partilhar caminhos inconstantes,
Ciente de te alimentar do que plantares,
O Bem Viver viverá ao teu redor - e tem lugar para dois. 
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FUI SABENDO DE MIM
Mia Couto

Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas



SAUDADE
Danniel Valente

Minha saudade
é uma gota e
um oceano.

Um barquinho
na superfície
do horizonte.

Sem lenço
sem aceno,
é silêncio.

Carrego
todas as festas vividas,
mas não sofro...
celebro.

A saudade
é para ser alegria revivida,
jamais a dor...
uma ferida. 
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— com Danniel Valente.

A cada leitura
que faço de mim,
invade-me uma
vontade urgente
de reescrever-me.
[Ana Barreto]


MANHÃ PARA SE SER FELIZ
JG de Araújo Jorge

Esta é uma manhã para se ser feliz
em algum lugar, de algum modo, -
é uma manhã para se ser feliz...

Esta é uma manhã para dois, para dois juntos
abraçados e tontos, num remoinho,
não como nós, eu aqui, diante do sol, das árvores,
de tudo,
- envergonhado porque estou sozinho...
Esta é uma manhã que me fala de ti, nas nuvens,
na transparência do ar,
neste azul do céu, imaculado,
na beleza das coisas tocadas de sonho
e imaterialidade...

Uma manhã de festa
para se ser feliz de verdade !

Esta é uma manhã
para te ter ao meu lado...

Quando Deus fez uma manhã como esta estava
com certeza apaixonado...
(Maio... - Friburgo) 
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TÃO BOM AQUI
Adélia Prado

Me escondo no porão
para melhor aproveitar o dia
e seu plantel de cigarras.
Entrei aqui para rezar,
agradecer a Deus este conforto gigante.
Meu corpo velho descansa regalado,
tenho sono e posso dormir,
Tendo comido e bebido sem pagar.
O dia lá fora é quente,
a água na bilha é fresca,
acredito que sugestionamos elétrons.
Eu só quero saber do microcosmo,
O de tanta realidade que nem há.
Na partícula visível de poeira
Em onda invisível dança a luz.
Ao cheiro de café minhas narinas vibram,
Alguém vai me chamar.
Responderei amorosa,
Refeita de sono bom.
Fora que alguém me ama,
Eu nada sei de mim.

Texto extraído do livro “A duração do dia”, Ed. Record, 2010 - Rio de Janeiro (RJ), pág. 09. 
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O mistério de um não-encontro
tem desolados triunfos:
frases não-ditas,
palavras silenciadas,
olhares que não se cruzaram
nem souberam onde repousar -
só as lágrimas se alegram
por poderem livremente correr.
um roseiral perto de Moscou
- ai meu Deus! - teve tanto a ver com tudo isso...
E a tudo isso chamaremos
de amor imortal.
[Anna Akhmátova] 
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Poetisa: Guida Linhares


ONDE ANDARÁ O MEU AMOR
Ysolda Cabral



AMANTE DA LUA
Amaro Vaz

Estúpida manhã, porque me trazes.
O sol? Não vês que os raios dos seus dias
Por mais que queiram não serão capazes
De devolverem-me as alegrias?

As minhas emoções vivem nas fases
Da lua. Que minguantes e vazias
Dá vida aos os meus sonhos mais vorazes
Quando se fazem cheias de ousadias.

Não vês a dor do triste girassol
(tão dependente dos raios de sol)
Girando, atrás do sol, sobre seu galho?

Como te sentes matando a neblina?
E aquela gota que o sol extermina?
Por que tens tanto ódio do orvalho?

Carangola/Macaé
Junho 2012 
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ORAÇÃO
Ana Barreto

No alto da igreja havia um sino
Que badalando fazia tremer o campanário
E no arrebol de uma manhã, algum canário,
Anunciava pra mais tarde o sol a pino

O tempo passou em artimanhas do destino
As lembranças se foram sem orações
Minha boca tosca cantou outras canções
Trilhei caminhos de tortuosos desatinos

Porém se é amor ou dor que nos resgata
Me curvo agora sem qualquer bravata
E a minha voz entoa um Pai Nosso

Pela felicidade daqueles a quem amo
O teu nome, meu Jesus, eu proclamo
Porque sozinha, descobri que nada posso... 
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RIMANEJAR
Jenario de Fatima

No verso que faço agora.
no qual me esforço e me empenho
(um louco vem me incorpora
A parte melhor que tenho)

Juntei o doce da amora
Ao mel da cana de engenho
Vesti-lhe cores da aurora
E surgiu este desenho.

Um desenho de criança,
Criança sim! porque não?
As rimas parecem danças

Sem nenhuma pretensão,
Mas que ferem como lanças
O seu doce coração... 
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MULHERES (Libertinagem)
Manuel Bandeira

Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos eu vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma,
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...

És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no
[morro atrás de casa e tinham cara de pau).

Tela: Irina Vitalievna Karkabi 
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https://www.facebook.com/photo/?fbid=469660089762672&set=a.441251795936835








Poetisa: ANOUSHE DUARTE





ENTARDECER
(Victtoria Rossini)

Sinto a noite chegando
E sei que ainda não fiz nada
Do que vim fazer aqui

Tenho aqui milhares de palavras
A espera de serem ditas
Energia explodindo em meu corpo
Pela tensão de coisas
Na eminência de serem feitas
Tenho uma urgência
Uma ânsia
Que sei que não me deixará dormir

O sol se esconde
E rompe dentro de mim
O arrependimento

De ter calado quando deveria ter falado
Ter deixado as lágrimas correrem pelos olhos
Quando deveria tê-las deixado vazar pela boca
Ter desistido quando deveria ter insistido
Ter mudado lá atrás os atalhos do caminho

Sei que deveria ter feito bem mais
Sei que poderia ter feito tudo melhor...
Mas a noite chega;
Encerra-se mais um dia

Amanhã!...
Amanhã
É mais um dia pra acertar
Com certeza: Não cometerei mais os mesmos erros! 
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Poucos são os que tem privacidade para ficar tristes.
Nesse mundo de vigília e patrulha constantes, é um
luxo poder sofrer sem ter ninguém nos observando.
[Martha Medeiros]
— com Zemira Tognato e Marco Orsi.


VERSOS O(EX)POSTOS
Telma Moreira

Escrevo meus versos sem seu sentido
Que são o oposto de tudo que sinto
Que são o meu grito no peito contido...
E como dizer não, se assim eu minto?

Escrevo as rimas, de trás pra adiante,
Na força que cresce em minha fraqueza
Pra que eu sobreviva mais um instante
Pra que a garganta não fique tão presa!

Escrevo mentiras pra me acreditar,
Porque só assim supero meus medos
E sou bem mais forte pra recomeçar...

Escrevo-os mudos, sem riso, sem pranto
E neles eu exponho tantos segredos...
Sem eles não sou, não vivo, não canto!

Tela: Gianni Strino 
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SUSPIRO D'ALMA
Almeida Garret

Suspiro que nasce d'alma,
Que à flor dos lábios morreu...
Coração que o não entende
Não no quero para meu.

Falou-te a voz da minha alma,
A tua não na entendeu:
Coração não tens no peito,
Ou é diferente do meu.

Queres que em língua da terra
Se digam coisas do céu?
Coração que tal deseja,
Não no quero para meu. 
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COMUNHÃO
Ana Barreto e Jenario de Fátima

Te quero ter pra mim agora e sempre,
Um amor de completo encantamento.
Quero ir a fundo neste sentimento
Que se plantou assim feito semente.

E após semear como se ara a terra
E espera dela o que poderá nascer,
Como o solo que clareia o amanhecer
Na turva neblina que ali descerra

E apenas seremos como Deus supunha...
Não feito amores que a vida rascunha
E depois esquece qual furtiva luz.

Estaremos sim,pelo sempre ligados
Um no outro unidos,presos,completados
No universo desse amor que nos conduz... 
Ver menos
— com Zemira Tognato e 
4 outras pessoas
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POETA: Claudeciano Alves






Verti teu sabor
Em meus lábios
Dobrei a pele
E sangrei toda cor
Menina morena!

Vôo macio
Brisas... Borboletas...
E a lua brinca
Com nossos olhares

Somos o encanto
Amantes da noite
Pouso dentro de nós!

Ydeo Oga 
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POETISA: Flora Figueiredo

Onde nasce a poesia
16 de dezembro de 2012
 ·
POETA: Théo Drummond






POETISA: Maria Rita Bomfim









POETISA: Silvia Schmidt


A GARÇA
Francisca Clotilde
(1862 - 1935)

Ei-la triste a mirar as águas irrequietas,
Parecendo evocar em visões luminosas
O passado de amor, as estâncias diletas,
Outro céu bem distante, outras margens formosas!

Exilada talvez das paragens ditosas,
Onde outrora gozou de alegria discretas,
Quer as asas de neve, essas asas plumosas
Espalmar pelo azul e voar como as setas.

Mas coitada! Não pode atingir as alturas,
Pois alguém a privou de fruir as venturas
Do inocente viver, da feliz liberdade.

Como a garça, tristonha, eu me sinto finar,
E não posso fugir... e não posso voar
Tenho aqui de carpir a tristeza, a saudade.


Contribuição de: Anamélia Mota 
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UNIÃO
Claudia Dimer

Vês duas pedras juntas nos caminhos?
Não estão sós, amor, pois são vizinhas!
Duas rosas brotando entre os espinhos,
Sobre o Alfeneiro duas avezinhas!

O vento e a água unidos aos Moinhos...
Alcor e Mizar; doces irmãzinhas!
Entrelaçados vês dois casaizinhos?
São tuas mãos entrelaçando as minhas!

Na natureza nada existe só,
A chuva une-se ao sedento pó,
O orvalho à relva, o som do mar à brisa...

E os nossos beijos cálidos, ardentes,
Juntando as nossas almas, nossas mentes,
Nessa união de amor que se eterniza!...


Art: Margot Vidal 
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OS DOIS CORTEJOS
Joséphin Soulary
1815-1891

A dois cortejos se abre a igreja. Um em sombria
tristeza vem: - conduz de um anjo o esquife estreito;
segue-o aflita mulher, e quase tresvaria,
os prantos a afogar no escandecido peito.

o outro um batizado: - e na faixa macia
se agita o pequenito; a mãe, com mimo e jeito,
dá-lhe o inefável seio e o afaga e acaricia
e o abraça, a rir, radioso o gesto, em triunfo o aspeito.

Do templo, batizado e enterro vão-se embora.
Súbito, as duas mães se encontram... Nesse instante,
uma, furtivo olhar, no olhar da outra demora.

E - dolorosa cena, ó lance edificante!
A jovem mãe que ria, ao ver o esquife, chora,
e a que chorava ri, ao contemplar o infante!

Tradução:Júlio Maciel 
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Poeta: JORGE LUIZ VARGAS

Poeta: GILBERTO MAHA

FUGAZ
GilbertoMaha®©

Não sei o que fiz
não sei o que fazes
Só sei que não fiz
mas me julgas por fases

Se te julgas perdiz
e se perdes nas frases
Diz o que quis e o que não quis
e nem quisestes as pazes

Se te julgas fugaz
escondendo-se entre ases
saiba que não sou mais rapaz
nem de vínculos tenazes

Sou o que pensas que sou
e não me importa o que pensas
Sei apenas quem sou
já não me importam as sentenças.

Tela: Heloise Cruse 
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A HORA CINZENTA
Raul de Leoni
1895 - 1926

Desce um longo poente de elegia
sobre as mansas paisagens resignadas;
uma humaníssima melancolia
embalsama as distâncias desoladas...

Longe, num sino antigo, a Ave Maria
abençoa a alma ingênua das estradas;
andam surdinas de anjos e de fadas,
na penumbra nostálgica, macia.

Espiritualidades comoventes
sobem da terra triste, em reticência
pela tarde sonâmbula, imprecisa.

Os sentidos se esfumam, a alma é essência,
e entre Fugas de sombras transcendentes,
o Pensamento se volatiza...


Ilustação: Francisco Maduro 
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BUSCA INSANA
Jenário de Fátima

Tenho andado só nos últimos anos,
A sensibilidade à flor da pele.
Atrás de quem me cuide, quem me zele
Na busca inexplicável dos insanos.

Face cansada por perdas e danos
E por vendavais que minha nau impele.
Nunca me acostumo ao frustrar de planos,
Ou sal da lágrima que o olhar expele.
.
Mas cada dia sempre é um recomeço,
Mais um trecho a somar pelo caminho.
Por cada face... Cada rosto que conheço!

Mais me maltrato, questiono, e me definho!
E em cada quarto ou cama que amanheço,
Vou ficando cada dia mais sozinho! 
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AO ZÉFIRO
Gustavo Adolfo Bécquer
1836 - 1870

Zéfiro doce que, vagando alado,
por entre as frescas, purpurinas flores,
com suave beijo furta seus odores
para espalhá-los pelo verde prado;

queixas de meu amor e meu cuidado
leva à que, só de olhar, mata de amores,
pede-lhe que alivie as minhas dores
e me console o coração magoado.

Não! Não vás, não. .. Porque, se acaso a achares,
e o de seus lábios cálido perfume
pelo de um cravo enganador tomares,

provando-o, como é bem de teu costume,
embora pondo fim aos meus penares,
eu iria de ti sentir ciúme.

(Trad. de Mello Nóbrega) 
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QUANDO O GRÃO LUME SURGE DO ORIENTE...
Vittoria Colonna
1492 - 1547

Quando o Grão Lume surge do Oriente
e o negro manto desta noite afasta,
quando na terra o gelo se desgasta,
dissolvido ao calor de um raio ardente,

a minha dor, que o sono suavemente
anestesiara, acorda mais nefasta.
E, quando aos outros o prazer se gasta,
é que revive o meu, mais docemente.

Assim me impele uma inimiga sorte:
procuro a escuridão, fugindo à luz,
odeio a vida, desejando a morte.

O que ensombra outro olhar no meu reluz.
Se fecho os olhos, abre-se, num corte,
a dor profunda que a meu sol conduz.

(Trad. de Delson Tarlé) 
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Poetisa - LUIZA CARVALHAES DE ALBUQUERQUE




















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